domingo, 5 de julho de 2009

O Nada

Há momentos em que em não me habito.
Vou longe, para o alto, evanescendo.
Definho a cada degrau acima,
em fragmentos meu pensamento.

Nessas horas, sou como o vento que sopra
sem saber ao certo de onde veio.
Como um brilho de ausência, o esquecimento.
Quanto mais alto vôo, mais para o fundo me sinto,
quando tento olhar de volta para mim.

Procuro-me como que tateando as paredes
de uma imensa sala escurecida; esbarro em pedras,
corto meus pés, meus joelhos, e essa sala sou eu.

Como pudesse estar em meio a mim mesmo,
num vão onde não há sequer um outro,
ou qualquer coisa que me dê referência.

Por isso, nesses momentos, não sei quem sou.
Trêmula é a voz que arrisca dizer
que sou algo além do Nada.

No Nada, enfim, volto triste à identidade.
Não fui capaz de me perder;
me agarro a tudo que não há
e faço tremer o mundo, crio,
sem sequer acreditar.

3 comentários:

Marcolino disse...

a gente às vezes se perde de vista porque somos maiores do que aquilo que cabe no nosso campo de visão.

é como se estivesse num daqueles rios gigantassos, que cê olha pra todos os lados e não vê margem, mar ou nascente.

ou, ainda, como um fractal - pode ir pra cima ou pra baixo, vai ter sempre mais aonde ir; e cada parte contendo o todo.

acho que numa situação dessas, cai bem dar uma de Descartes. se tá na dúvida, duvida mesmo. questiona, tenta provar pra si mesmo que existe ou que não existe.

acho que no final a gente sempre acaba percebendo, de um jeito ou de outro, que, apesar de não dar pra ver margem, mar ou nascente, a gente tá mesmo cercado de água, e não de nada =P

um pouco de fadiga no terceiro olho, talvez =P

asadebaratatorta disse...

Hehehe =)

Tenho descoberto que o Nada é uma das coisas mais fundamentais pra existencia. É um pouco complicado de entender, eu acho. No meu caso, ultimamente, é como se uma máscara minha (da minha coleção) tivesse caído. Num embaraço, o nda aparece e achei que precisasse ser afirmado. Nesse poema, eu quis mostrar a importancia do Nada ou de nada no processo de identificação, de geração de identidade humana. Identidade esta que as vezes não se percebe, mas que é preciso estar atento se se quer viver integrado consigo mesmo, com facetas obscuras, desejos sombrios e vontade de luz também.
Obrigado por me ajudar a entender mais disso, marcola ^^
;*

Marcolino disse...

:)