Em quase tudo, queria ser eterno.
No sabor da água, no fluir do vento.
No coração de alguém, ou em mim mesmo.
Mas...
Corações não são eternos.
Cessam de pulsar
quando a vida bem quer.
Também morre a língua;
o tato, o olhar brilhante.
A estrela cadente que reincide
na história perecível
dos segundos da existência.
Desejo a eternidade que não pode
ser sentida.
Das outras, abro mão com olhos incandescentes.
Pois que se a carne e os sentidos não forem infinitos,
jamais será eterna a minha própria dor.
[chocolate sabor pimenta nos olhos]
by Raphael.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
Arco...
Era um arco-íris o que ele via. Quando a chuva, já calma, cessava entre a terra e as árvores do caminho, as cores reluziam logo adiante, aos pés de uma colina. Caminhou em direção ao colorido contraste das luzes com o verde da mata, o cinza da neblina e o azul-claro do céu. Uma explosão de vida. Ele devia mesmo sentir inveja do arco-íris. Não queria apenas possuí-lo, tê-lo em suas mãos; não bastava a posse: era preciso sê-lo. Seguiu os restos dos pingos de chuva pela terra amarela e batida, lhe sendo reveladas as mais belas paisagens. E lá estava ele: bem próximo à brilhante muralha prismática que, espantosamente, parecia brotar do chão para as nuvens. Gostaria de dizer algo a ele, mas não pude. Eu não era nada além do vento que sopra. Soprei, mas ele insistiu. Fascinado com a parede ofuscante a sua frente, deu dois passou, estendeu o braço direito e ousou tocar a beleza. tocou-lhe e, de súbito, sentiu um choque em sua mão; seu corpo inteiro tremia e seus cabelos negros perderam levemente a cor: estavam cinzentos como a neblina. Gritou. Não pôde ver a diferença em seus cabelos, mas percebeu, na parte interna dos seus antebraços, seu sangue em tom de verde-floresta. O verde pulsava e seu corpo tremia. A dor percorria todo o seu corpo e logo ele sentiu uma sede tremenda. Desidratou. Pediu perdão ao arco-íris, mas já era tarde para voltar atrás. Gostaria de dizer-lhe algo, mas ele não poderia me ouvir. Gostaria de dizer que seus olhos reluziam nas cores daquele imenso arco-íris. Ele agonizou por mais alguns segundos, sentindo a carne do seu corpo secar e os cabelos cair. Estava quase pronto: já não desfrutava de movimentos humanos, mas seu corpo ondulava e reluzia as sete cores vagarosamente: estava transmutando em outro tipo de existência. Eis que o aro-íris, imponente, levanta vôo atrás das nuvens e, de dentro do corpo daquele homem, sáiram apenas a sede de chuva, a vontade de ser um corpo brilhante e a essência indefinida de sua alma. Todo o resto morreu: alimentou a terra faminta. Logo, a mistura do que restou entrou no arco-íris em forma de vívidas cores que o deixaram ainda mais belo. E então, seguindo a sede de sua natureza, o arco-íris voou entre as colinas em busca da próxima chuva. Não sei o que restou do homem enquanto consciência de si mesmo. Nem se, depois de tanto sofrimento, ele finalmente encontrou o que faltava no fundo de seu espírito. Gostaria de dizer algo àquele homem. Talvez agora ele me ouvisse. Tornando-se o arco-íris, ele não poderia desfrutar daquela visão de antes - a visão humana. Ele perderia o vislumbre da magnitude do mundo. Porém, além da perceptível dor, não sei ao certo o que aquele homem sentiu. De certo que, como eu, ele não está mais dentro e fora do ciclo ao mesmo tempo. Agora, ele está apenas dentro. E eu nunca irei saber como ele se sentiu antes de voltar à eternidade da sua existência: um magnífico arco-íris de sonhos, desejos e nada mais.
Este conto foi inspirado na obra Mushishi.
Este conto foi inspirado na obra Mushishi.
sábado, 19 de janeiro de 2008
Janeiro.
As chuvas de janeiro começaram. Elas caem impiedosamente, lavando as árvores e a terra. Por caírem em janeiro, elas me dão de novo a maldita idéia de ciclo. A serpente esfomeada que come a própria cauda. A água enche as ruas e os canais fétidos transbordam: pouco a pouco, nos alagados, florescerão peixes coloridos que desaparecerão no porvir do sol que evapora tudo. restará o mesmo pó; o pó sujo das águas poluídas que fazem brotar os mesmos peixes coloridos. E dos corações, alagados, cheios de uma coisa que não cessa de partir... Talvez reste também o pó; a poeira das verdades que não estão mais lá.
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
Ano Novo.
E lá estava eu: na rodoviária esperando a hora do ônibus sair. Queria ficar só, mas minha mãe não deixou. Não largou do meu pé até uma e vinte da tarde. De modo que não consegui escrever nem uma poesia. Mas isso não é bom nem mau. A agonia. Depois eu terei tempo de falar sobre ela. Na verdade eu não consigo lembrar da minha vida sem ela. Não é nada forte, ou nada direto. Ela costuma me afetar indiretamente, infiltrando-se sorrateira pelos cantos do meu peito. É onde dá para senti-la. Ela pulsa. Suas batidas diferem das do meu coração e ela quase o hipnotiza; quase faz ele bater segundo o seu ritmo. Ela parece um espelho imperfeito; uma penumbra que se movimenta livremente. Somos íntimos, mas não nos conhecemos ao certo. Sei que ela se alimenta e fica alegre com a felicidade. Ela deve se sentir muito sozinha. Como uma dor desejada foi a luz do sol que me encheu os olhos nesta tarde magnífica. As árvores secas na estrada. O capim cinza. A árvore prateada, sozinha, no meio daquele monte. as poucas folhas verdes nascentes. Uma clara visão da restauração, de Deus. Não há como narrar, descrever ou explicar aquele sentimento, aquelas idéias flamejantes. Eu perdi um pouco do meu sangue hoje. Pensei que eu derramaria todo ele naquela árvore só para vê-la brotar em mais folhas verdes. Depois, abraçaria seu tronco reluzente e de lá observaria o mundo e nada teria sido em vão. Eu sou Raphael. Desejo a vocês, meus queridos amigos, uma vida que valha a pena ser vivida. Lembrem que os anos não o são. Não há como aprisionar o tempo, nem há razão: ele é perfeito como nunca seremos. Feliz vida e que sintam o mesmo abraço que eu daria na árvore prateada. Pax
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
Feliz Natal
AD AMICOS
Em vão lutamos. Como névoa baça
a incerteza das coisas nos envolve.
Nossa alma em quanto cria, em quanto volve,
nas suas próprias redes se embaraça.
O pensamento, que mil planos traça,
é vapor que se esvai e se dissolve;
e a vontade ambiciosa, que resolve,
como onda em rochedos se espedaça.
Filhos do amor, nossa alma é como um hino
à luz, à liberdade, ao bem fecundo,
prece e clamor d'um pressentir divino;
mas num deserto só, árido e fundo,
ecoam nossas vozes, que o Destino
paira mudo e impassível sobre o mundo.
Antero de Quental.
Em vão lutamos. Como névoa baça
a incerteza das coisas nos envolve.
Nossa alma em quanto cria, em quanto volve,
nas suas próprias redes se embaraça.
O pensamento, que mil planos traça,
é vapor que se esvai e se dissolve;
e a vontade ambiciosa, que resolve,
como onda em rochedos se espedaça.
Filhos do amor, nossa alma é como um hino
à luz, à liberdade, ao bem fecundo,
prece e clamor d'um pressentir divino;
mas num deserto só, árido e fundo,
ecoam nossas vozes, que o Destino
paira mudo e impassível sobre o mundo.
Antero de Quental.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Sensibilidade:
Sensibilidade. Sentir-se como parte do mundo, ao mesmo tempo que o mundo faz parte da sua própria percepção. Tantas idéias e todas ao mesmo tempo: quase não há como diferir: tudo vem num misto de sentir e pensar. De repente, aquilo se mostra fugaz: não se sabe mesmo o porquê do sofrimento, da alegria, dar dor de cabeça inexplicável; das dores de estômago: dores de viver. Talvez sejam mesmo as dores do mundo; dores de quem é usado a todo tempo por quem ainda não aprendeu a amar. Dores de todas as contradições que circulam com o vento e infectam esta cidade... Mas ninguém parece entender o que significa sentir isso. O paradoxo de sentir pulsar o mundo em si e se pensar sozinho, fragmentário, disperso. Talvez por que pensar e sentir não devêssem ser separados um do outro. Talvez por que nada disso importe à ação, que é concreta e acreditamos ser o que nos define. Melhor mesmo é acreditar que... Somos. Somos totais. Não há fragmentação que não nos seja pura ilusão: quem sabe a sensibilidade nos mostre isso todos os dias em que sofremos sem ao menos saber por que.
sábado, 17 de novembro de 2007
...
Fúria nas trevas o vento
Fúria nas trevas o vento
Num grande som de alongar,
Não há no meu pensamento
Senão não poder parar.
Parece que a alma tem
Treva onde sopre a crescer
Uma loucura que vem
De querer compreender
Raivas nas travas o vento
Sem se poder libertar.
Estou preso ao meu pensamento
Como o vento preso ao ar.
Pessoa.
Se ao menos eu pudesse saber a verdade...
Não a minha, que já a conheço bem, mas
a verdade dos que me cercam e dizem
me amar, respeitar, odiar...
Isso acalmaria meu espírito como uma droga:
a verdade alheia, a que convém; que
nos instantes de uma população ardente
é clamada a ferro e sangue.
e tortura quando não obtém resposta
daqueles que são donos da verdade que nos conforta
e ao mesmo tempo, nos queima.
Nos queima por perceber essa verdade tão relativa.
Que varia de verdade em verdade,
sem chegar a um ponto fixo,
pois assim, nos supririam.
É essa verdade que eu quero.
Só assim saberia que por ela
não vale a pena viver.
(poema criado em conjunto por Italo e Raphael)
Fúria nas trevas o vento
Num grande som de alongar,
Não há no meu pensamento
Senão não poder parar.
Parece que a alma tem
Treva onde sopre a crescer
Uma loucura que vem
De querer compreender
Raivas nas travas o vento
Sem se poder libertar.
Estou preso ao meu pensamento
Como o vento preso ao ar.
Pessoa.
Se ao menos eu pudesse saber a verdade...
Não a minha, que já a conheço bem, mas
a verdade dos que me cercam e dizem
me amar, respeitar, odiar...
Isso acalmaria meu espírito como uma droga:
a verdade alheia, a que convém; que
nos instantes de uma população ardente
é clamada a ferro e sangue.
e tortura quando não obtém resposta
daqueles que são donos da verdade que nos conforta
e ao mesmo tempo, nos queima.
Nos queima por perceber essa verdade tão relativa.
Que varia de verdade em verdade,
sem chegar a um ponto fixo,
pois assim, nos supririam.
É essa verdade que eu quero.
Só assim saberia que por ela
não vale a pena viver.
(poema criado em conjunto por Italo e Raphael)
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